por Ir. Luisa Almendra
Caso prefira, assista ao vídeo gravado clicando aqui: https://youtu.be/QznsB_2Pcro
Hoje, Quarta-feira de Cinzas, somos todos e todas convidados a olhar para a nossa existência como um caminho: um caminho de quarenta dias a que chamamos de Quaresma. No horizonte bíblico, onde habitam as origens deste tempo, este número é associado ao universo material e ao tempo da vida, nas suas provações, fragilidades, alegrias e sofrimentos.
Podemos, por isso, dizer que os quarenta dias de cada Quaresma nos falam da nossa vida, como um tempo e um caminho em que somos permanentemente desafiados a olhar para a nossa humanidade, a caminho de outra realidade: a realidade de Jesus ressuscitado.
As palavras que se repetem neste dia, “… tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19), e o gesto de baixarmos a cabeça e de recebermos as cinzas são um apelo a reconhecermos que somos uma humanidade frágil.
E, desta nossa fragilidade, todos, mulheres e homens, somos chamados a olhar para Jesus Cristo e aprender a olhar a vida não como uma subida para os sucessos deste mundo, mas como uma descida para o amor que sabe morrer a si mesmo pelos amigos e inimigos; o amor que sabe perdoar e sorrir de novo; o amor que vive da gratidão e da bênção; o amor crucificado e transformado.
Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, todos somos chamados a relembrar aquilo que define o caminho de cada dia da nossa vida: o amor transformado. Não somos onipotentes nem poderosos; somos pó e, ao pó, todos havemos de voltar. Somos uma terra frágil que procura deixar-se transformar com e pelo amor de um Jesus Cristo crucificado.
Por isso, o tempo da nossa vida, ou o caminho que se reinicia em cada Quaresma, é um caminho em que a penitência é única e exclusivamente a penitência do amor. No coração e na ação de cada um de nós, colocamos o amor crucificado de Jesus, que sustém e transforma a nossa fragilidade sempre propensa a tantos sentimentos e afirmações de autossuficiência e superioridade.
Não somos deuses nem Deus é isto. Caminhamos em direção a um Deus de amor crucificado, que derruba todas as formas de sucesso egoístas e insensíveis ao outro, elevando os que, no silêncio de cada dia, escutam a dor e a alegria dos outros e as tornam reconhecidas.
Levemos para este caminho o convite do Papa Leão XIV, que nesta Quaresma nos convida a deixarmo-nos abençoar na nossa humanidade frágil:
– a desenvolver em nós o dom da escuta, capaz de inquietar-se diante de todas as formas de sofrimento que nos são próximas.
– e a viver o jejum de quem se alimenta de pão, mas também, e sobretudo, se alimenta da Palavra de Deus;
a verdadeira Palavra que nos sacia e nos acautela diante das palavras que atingem e ferem;
a autêntica Palavra capaz de desarmar as palavras carregadas de feridas e de desencanto;
a única Palavra que pode transformar palavras de ódio em palavras de esperança e de paz.
Façamos este caminho juntos, melhorando a qualidade do tempo que damos à nossa oração, partilhando também do que nos faz falta e aprendendo a jejuar de palavras que destroem a vida em nós e nos outros, lembrando que “… No caminho de Deus não há descanso;
parar é perder tudo” (P. Jen Gailhac).