Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré, da Galileia, ter João no rio Jordão para ser batizado por ele. (Mt 3,13)
Repentinamente, o menino nascido em Belém aparece diante de nós como um homem que decidiu deixar a sua casa em Nazaré, a sua vida familiar, o seu eventual ofício de artesão e as paisagens familiares da Galileia, para ir ao encontro do profeta João, que está a batizar do outro lado do rio Jordão. O que terá ocorrido a Jesus para deixar a vida tranquila? Que sonhos levava na sua mente e no seu coração ao deixar a sua casa e a sua mãe? Por que procurou e insistiu tanto no batismo de João?
São perguntas a que só Ele pode responder. Mas eu não resisto a partilhar convosco esta carta escrita por um sacerdote espanhol, José Luís Cortés, na qual tenta recriar os sentimentos de Jesus neste momento da sua vida. É uma carta dirigida a Maria, sua mãe, na qual Jesus explica o que o leva a deixar a casa.
«Querida mãe: quando tu acordares, eu já terei partido. Quis poupar-te a despedidas. Já sofreste muito e sofrerás ainda mais. Agora é noite, enquanto te escrevo. Quero dizer-te por que me vou, por que te deixo, por que não fico na oficina a fazer ombreiras para portas ou cadeiras o resto da minha vida.
Durante trinta anos observei as pessoas do nosso povo e tentei compreender para que viviam, por que se levantavam a cada manhã e com que esperança adormeciam todas as noites. O João e, com ele, metade das pessoas de Nazaré sonham em fazer-se ricos e acreditam que, quanto mais coisas tiverem, mais completos vão ser. O chefe da cidade e os outros põem o sentido das suas vidas em conseguir mais poder, em serem obedecidos por mais pessoas e em terem capacidade para dispor do futuro dos outros homens. O rabino e os seus seguidores já desistiram de tudo o que significa esforçar-se por crescer e desculpam-se ao dizer que é por vontade de Deus. (…)
Às vezes, mãe, quando soava a trombeta na praça e as pessoas acorriam de todos os lados, eu fixava-me nos seus rostos que esperavam ansiosamente e delirantemente por uma boa notícia. Elas teriam dado a metade das suas vidas para que alguém, de fora, lhes abrisse uma fenda nos seus muros. Desejava ardentemente pôr-me no meio deles e gritar-lhes: “A boa-nova já chegou! O Reino de Deus está dentro de vós! As melhores notícias vão chegar por meio de vós! Por que repetem que estão coxos se Deus vos deu pernas de gazela?”
Sinto-me tomado pela plenitude da vida, mãe. E descubro-me aceso num fogo que me leva e me faz contar aos homens notícias simples e belas que ninguém diz (e se alguém chega a dizer, logo o censuram). E queria queimar o mundo com esta chama; que, em todos os cantos, houvesse vida, mas vida em abundância. Já sei que sou um carpinteiro sem licenciatura e que acabei de completar a idade para abrir os lábios em público. Não me importaria esperar mais, pensar mais, ser mais maduro, “fazer a minha síntese teológica” (…).
Mas… há demasiada infelicidade, mãe. Demasiados cegos, demasiados pobres, demasiada gente para quem o mundo é a blasfêmia contra Deus. Não se pode crer em Deus, num mundo onde os homens morrem e não são felizes… a menos que se esteja do lado daqueles que dão a vida para que tudo isso não aconteça; para que o mundo seja como Deus o pensou (…).»
Mas o testemunho bíblico diz-nos apenas que, tendo chegado junto de João, Jesus vê os céus abertos. E, destes céus abertos, uma voz inaugura um diálogo definitivo entre os céus e a terra, que é ele mesmo: a pessoa de Jesus. Nele e por Ele, Deus abre-se irreversivelmente à humanidade e torna-se um Deus que dialoga, caminha, acaricia, reconhece, interpela e ama desde o início até ao fim. É nele e por ele que se realizam todos os nossos batismos. É neste Jesus, Filho amado, céu na terra e horizonte de mistério e de amor de Deus, que somos continuamente transformados em filhos e filhas amados.
Celebremos o Batismo de Jesus, reconhecendo que há um Jordão também para cada um e cada uma de nós, que somos apenas terra e humanidade, tão espantosa quanto frágil. Um Jordão onde os céus se abrem e declaram continuamente, perante as alegrias e dores que nos assolam, que há um Filho amado, um dom de Deus. Uma possibilidade de viver nesta terra frágil e bela, sob a certeza de um céu aberto de Deus. Um apelo a crer e a recriar dias novos e futuros com horizontes. Jesus viu os céus abertos.
Seremos nós também capazes de vê-los?
É este fogo sagrado que Jesus Cristo veio trazer à terra e que Ele deseja ver reinar em todos os corações, a fim de que, fundidos neste fogo de amor, façam um só, na caridade. (GS/8/VIII/81/A)
Ir. Luísa Maria Almendra, RSCM