O Evangelho deste 5º domingo da Quaresma nos convida a uma avaliação da nossa vida à luz da justiça do Reino e a um olhar de misericórdia para com o irmão que caminha ao nosso lado. A reconciliação com Deus não é algo vertical, mas passa também pela revisão do nosso relacionamento com os outros e, por vezes, conosco mesmos.
A narrativa bíblica (João 8,1-11) explicita muito bem esse duplo convite à conversão pessoal e à compaixão. Ao ordenar que quem não tivesse pecados aplicasse a “justiça” àquela mulher, Jesus provoca nos seus acusadores um exame de consciência e uma conversão, tal como a que somos chamados, enquanto cristãos, a vivenciar ao longo da quaresma. Aquela que nos permite olhar com sinceridade para nossa própria vida e reconhecer o que em nós ainda precisa de luz e de cura, ao invés de mascararmos nossos erros através do julgamento aos outros. Jesus também exorta a avaliar as “leis” e os valores que regem nossa vida. Essa reflexão é necessária para não sacrificarmos o querer de Deus, que clama em nós, em prol dos nossos próprios julgamentos. É preciso pensar se as leis que nos dão segurança e nas quais nos agarramos não estão pautadas nos estereótipos e preconceitos que internalizamos ao longo da vida. No caso da mulher “adúltera”, é sabido que sua punição não era motivada apenas pela sua falta em si, mas pela discriminação típica da época para com a figura feminina, tida como fonte de pecado, além de uma clara intenção de prejudicar Jesus caso ele se posicionasse na situação.
Isso nos dá base para refletir, ainda, sobre nossas reais intenções quando pretendemos corrigir um irmão que erra. São, por ventura, a discriminação e a violência meios capazes de converter a alguém? Antes sim, a misericórdia e o amor são caminhos seguros para oferecer ao irmão que ainda está nas trevas uma nova perspectiva de vida, tal como fez Jesus. Nosso fundador, Jean Gailhac, já em 1879, apontava para essa perspectiva ao afirmar que “a palavra de um coração que ama é como o calor do sol: derrete o gelo dos corações e dá energia”. Assim podemos concluir que a motivação para corrigir alguém só é válida se precedida do amor e de uma genuína preocupação com a felicidade da pessoa. Caso contrário, corremos o risco de tão somente punir os outros por não se encaixarem nas nossas medidas, disfarçando de “justiça” nossos impulsos discriminatórios. Em outras palavras, somente o verdadeiro amor pode conferir a “autoridade” necessária para qualquer correção. Que a vivência desta Páscoa nos abra o coração para essa conversão de mão dupla: a reconciliação com Deus e a compaixão para com os nossos irmãos e irmãs!