por Ir. Cláudia Pacheco
É a noite da Ceia da Páscoa, a noite antes da tua morte.
Não és a voz calma, controlada e monótona que ouvimos todas as semanas na missa.
Estás desesperado, ansioso, atento e emocionado.
Dizes: «Não fazem ideia do quanto ansiava por partilhar esta refeição convosco.»
Estás com os teus companheiros mais próximos pela última vez, como um deles. Estás desesperado para ter a certeza de que eles compreendem, que entendem tudo o que tentaste ensinar-lhes. Estiveste com eles dia após dia durante três anos. Sabes que o caminho que têm pela frente não será fácil para eles sem ti. Mas, acima de tudo, queres que eles saibam o quanto os amas.
Não tens nada para lhes dar — nenhuma propriedade para lhes deixar como herdeiros, nenhum reino ou dinastia terrena. Após 33 anos nesta terra, não acumulaste nenhuma riqueza material. Tiveste até de pedir emprestado o burro para chegar lá naquela noite. Não tens nada para dar aos teus amigos mais próximos. Nada — exceto isto: este pão e este jarro de vinho.
Na noite antes de morreres, a riqueza material já não importa a ninguém. A única coisa que importa é ter os teus entes queridos por perto e ter a certeza de que eles sabem o quanto os amas.
E pegas nesse pão e nesse vinho, partes-os, partilhas-os e ofereces-os. Dás tudo o que te resta, como se dissesses num apelo desesperado: «Por favor, por favor, neste presente, vê o quanto te amo. É tudo o que me resta, mas mais do que tudo, quero que o tenhas. Quero que te lembres de mim por isso. Quero que te lembres do quanto te amo.»