Caminhos da Quaresma: reflexões sobre a Quarta-feira de Cinzas

Posted Fevereiro 18, 2026

por Ir. Luisa Almendra

Caso prefira, assista ao vídeo gravado clicando aqui: https://youtu.be/QznsB_2Pcro

Hoje, Quarta-feira de Cinzas, somos todos e todas convidados a olhar  para a nossa existência como um caminho: um caminho de quarenta  dias a que chamamos de Quaresma. No horizonte bíblico, onde  habitam as origens deste tempo, este número é associado ao  universo material e ao tempo da vida, nas suas provações,  fragilidades, alegrias e sofrimentos.  

Podemos, por isso, dizer que os quarenta dias de cada Quaresma nos  falam da nossa vida, como um tempo e um caminho em que somos permanentemente desafiados a olhar para a nossa humanidade, a  caminho de outra realidade: a realidade de Jesus ressuscitado.  

As palavras que se repetem neste dia, “… tu és pó e ao pó hás de  voltar” (Gn 3,19), e o gesto de baixarmos a cabeça e de recebermos as cinzas são um apelo a reconhecermos que somos uma  humanidade frágil.  

E, desta nossa fragilidade, todos, mulheres e homens, somos  chamados a olhar para Jesus Cristo e aprender a olhar a vida não  como uma subida para os sucessos deste mundo, mas como uma descida para o amor que sabe morrer a si mesmo pelos amigos e  inimigos; o amor que sabe perdoar e sorrir de novo; o amor que vive  da gratidão e da bênção; o amor crucificado e transformado. 

Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, todos somos chamados a relembrar aquilo que define o caminho de cada dia da nossa vida: o amor  transformado. Não somos onipotentes nem poderosos; somos pó e, ao pó, todos havemos de voltar. Somos uma terra frágil que procura  deixar-se transformar com e pelo amor de um Jesus Cristo  crucificado.  

Por isso, o tempo da nossa vida, ou o caminho que se reinicia em  cada Quaresma, é um caminho em que a penitência é única e  exclusivamente a penitência do amor. No coração e na ação de cada  um de nós, colocamos o amor crucificado de Jesus, que sustém e transforma a nossa fragilidade sempre propensa a tantos  sentimentos e afirmações de autossuficiência e superioridade. 

Não somos deuses nem Deus é isto. Caminhamos em direção a um  Deus de amor crucificado, que derruba todas as formas de sucesso egoístas e insensíveis ao outro, elevando os que, no silêncio de cada  dia, escutam a dor e a alegria dos outros e as tornam reconhecidas. 

Levemos para este caminho o convite do Papa Leão XIV, que nesta Quaresma nos convida a deixarmo-nos abençoar na nossa  humanidade frágil: 

– a desenvolver em nós o dom da escuta, capaz de inquietar-se diante  de todas as formas de sofrimento que nos são próximas. 

– e a viver o jejum de quem se alimenta de pão, mas também, e  sobretudo, se alimenta da Palavra de Deus;  

a verdadeira Palavra que nos sacia e nos acautela diante das palavras  que atingem e ferem;  

a autêntica Palavra capaz de desarmar as palavras carregadas de  feridas e de desencanto;  

a única Palavra que pode transformar palavras de ódio em palavras  de esperança e de paz. 

Façamos este caminho juntos, melhorando a qualidade do tempo  que damos à nossa oração, partilhando também do que nos faz falta  e aprendendo a jejuar de palavras que destroem a vida em nós e nos  outros, lembrando que “… No caminho de Deus não há descanso; 

parar é perder tudo” (P. Jen Gailhac).